Rios enterrados, memórias apagadas: o que perdemos quando canalizamos a natureza
A história das enchentes na Zona Oeste não começa com a chuva de ontem — ela vem de séculos de intervenção, aterros e esquecimento
Tem uma coisa que a gente aprende olhando pro mapa: nenhum rio nasce reto. Todo rio que você vê correndo em linha reta, desconfiado, pode ter certeza — ali houve intervenção. Alguém decidiu, em algum momento da história, que aquele curso d'água precisava ser "corrigido". E quando a gente corrige a natureza sem entender o que ela faz, o preço vem depois. Às vezes demora. Mas vem.
Na Zona Oeste do Rio de Janeiro, isso não é teoria — é realidade molhada, é porta de casa arrombada pela enchente, é sofá perdido, é criança sem aula porque a escola alagou de novo. E quando a chuva cai forte, sempre tem alguém dizendo: "é descaso do governo". E é, claro. Mas não é só isso. O problema é mais velho. Muito mais velho. Ele começa lá atrás, no tempo em que este chão ainda era chamado de sertão, e já era tratado como lugar de onde se tira, não onde se cuida.
O rio que virou reta — e a água que perdeu o rumo
Um rio tem curvas porque a água sabe o que faz. Ela desenha o caminho mais sábio: desacelera nas voltas, distribui a força, espalha a vazão. Quando você retifica um rio — isto é, quando você transforma ele numa calha reta —, a água passa a correr mais rápido, sem freio, sem pausa. Ela não tem mais onde descansar. E aí, quando vem a chuva forte, ela chega toda de uma vez. Entra nas casas. Invade as ruas. Destrói.
Isso aconteceu em vários rios por aqui. Rios que antes serpenteavam pelo campo, que tinham suas margens de vegetação, que alagavam áreas que eram naturalmente alagáveis — os brejos, as várzeas —, foram canalizados, retificados, enterrados. Viraram tubulação. Viraram problema.
E aí você olha pro noticiário e vê: Guaratiba alagada. Santa Cruz debaixo d'água. Campo Grande com rua transformada em rio. E a gente pensa que é coisa de agora, que é falta de obra, que é bueiro entupido. Mas não. Ou melhor: é também. Mas a raiz disso tá enterrada no mesmo lugar onde enterraram os rios.
Santa Cruz e a água que sempre esteve ali
Pega Santa Cruz, por exemplo. Ali era a Fazenda de Santa Cruz, uma das maiores propriedades rurais do Brasil colonial. Pertenceu aos jesuítas, que transformaram aquilo num imenso campo de produção: gado, cana, farinha, tudo. Mas pra fazer aquilo render, eles tiveram que domar a terra. E a terra ali, naturalmente, sempre foi úmida. Tinha brejo, tinha alagadiço, tinha água subindo quando chovia.
Os jesuítas já relatavam, nos seus documentos, que precisavam construir pontes, abrir canais, drenar áreas inteiras pra conseguir plantar e criar gado. Ou seja: já naquela época, a água "invadia". Só que ela não invadia — ela sempre esteve ali. O que mudou foi o uso da terra. Tiraram a mata, aterraram os brejos, mudaram o fluxo dos rios. E a água, que antes se espalhava devagar por uma área grande, passou a procurar outros caminhos. Caminhos que, hoje, são ruas. São casas. São vidas.
Pau-brasil, aterro e a terra que virou mercadoria
Guaratiba tem uma história parecida. Antes de ser bairro, antes de ser loteamento, aquilo ali era mata. Mata Atlântica densa, cheia de pau-brasil e outras árvores que sustentavam o solo, seguravam a água da chuva, faziam o chão respirar. Mas o pau-brasil valia ouro na Europa. E aí veio o extrativismo. Cortaram. Tiraram. Levaram embora.
Com o tempo, as áreas desmatadas foram sendo ocupadas. Mas o solo, sem a proteção da vegetação, virou outra coisa. Virou barro mole. Virou alagadiço. Aí, o que fizeram? Aterraram. Jogaram terra em cima, nivelaram o terreno, abriram espaço pra plantação, pra criação, pra loteamento. Só que aterro não resolve — aterro esconde. A água continua querendo ir pro lugar dela. E quando chove forte, ela lembra.
Hoje, em Guaratiba, é comum ver ruas inteiras debaixo d'água depois de uma chuva prolongada. E não é só questão de drenagem mal feita (que também é). É que aquele lugar, estruturalmente, foi alterado de um jeito que nunca mais voltou ao equilíbrio. A paisagem foi reescrita, mas a água tem memória.
A enchente de todo verão — e o ciclo que se repete
Todo verão é a mesma coisa. Chove forte, alaga tudo, vem o noticiário, vem a promessa de obra, vem a limpeza, e no ano seguinte acontece de novo. E aí a gente fica nessa: culpa de quem? Do prefeito? Do governador? Da falta de investimento? Sim. Mas também não.
Porque o problema não é só de agora. Ele é estrutural. Ele vem de séculos de uso errado da terra, de desmatamento, de aterramento, de canalização de rios, de ocupação de áreas que a natureza já tinha designado como lugar de água. A gente não inventou esse problema ontem. A gente herdou ele. E continua repetindo.
Então quando a chuva vem e a água entra, não é a natureza que tá sendo violenta. É a natureza tentando voltar pro lugar dela. E encontrando, no caminho, gente morando onde antes era rio, brejo, várzea.
O que a gente pode fazer?
Entender que aquele alagamento não é acaso. Que aquela rua que vira rio todo ano já foi, um dia, parte de um sistema hídrico natural. Que a solução não passa só por obra de concreto, mas também por recuperação de mata ciliar, desassoreamento de rios, criação de áreas permeáveis, respeito aos cursos d'água.
Cobrar que as políticas públicas olhem pra história do território, não só pro presente. Que os planos de urbanização levem em conta a geografia original, os rios que foram enterrados, as nascentes que ainda existem (mesmo escondidas).
Lembrar que a Zona Oeste, essa região que hoje muita gente chama de "periferia esquecida", já foi sertão. E que esse sertão tinha rios, tinha mata, tinha equilíbrio. E que esse equilíbrio foi quebrado não por acaso, mas por escolhas — escolhas econômicas, políticas, coloniais.
A memória que a água carrega
Quando a água invade, ela traz junto uma memória. A memória de quando aquilo ali era brejo. De quando aquele chão respirava. De quando o rio fazia curva e a chuva não era tragédia.
E talvez o maior desafio da gente, hoje, seja aprender a ouvir o que a água tá dizendo. Porque ela não mente. Ela não inventa. Ela só volta. Sempre volta. E enquanto a gente não entender isso — enquanto a gente continuar achando que pode domar a natureza sem consequência —, todo verão vai ser igual.
A água tem paciência. Mas também tem força. E ela não esquece o caminho de casa.

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